segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Encontro Marcado



Conheceram-se numa tarde de maio.

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Mariposa Apaixonada de Guadalupe era uma mulher insegura. Muito.  Daquelas que ficam em casa num sábado à noite tomando um sorvete e assistindo a Comer, Rezar, Amar. Não saía nunca. Ficava sempre em casa com a mãe, mesmo aos 28 anos de idade.

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Arlindo Orlando era um cara bem rústico, trabalhador e bastante prestativo. Não era muito bom com as palavras, mas sabia demonstrar bem as coisas que queria. Com uma determinação do cão, ia até o inferno para alcançar seus objetivos.

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Encontraram-se várias vezes. Sempre virtualmente.

Foi num site de relacionamentos que começaram a conversar.

Ela, desesperada por um novo amor, mal conseguia conter sua empolgação. Não parava de falar. Perguntava tudo sobre sua vida e mal esperava uma resposta para puxar um novo assunto.

Ele, que era bombardeado por perguntas, não sabia como responder. Perguntava para a mãe e para o melhor amigo o que responder nas horas certas. Sorte a dele que tinha ajuda, pois a conquistou fácil, fácil.

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Moravam na mesma cidade e achavam um cúmulo nunca terem se visto antes. Afinal, próximos e íntimos como ficaram, a cidade era pequena demais para os dois.

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Ele, mesmo sem saber o que falar, dizia tudo aquilo que ela queria ouvir.

Apenas sendo ele mesmo, conseguiu fazer com que ela acreditasse no verdadeiro amor. Com que ela acreditasse que existem pessoas que encaixam na vida dos outros assim como uma luva serve numa mão.

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Ela, com seu jeito inseguro e delicado, fez com que ele percebesse o fato de como as pessoas conseguem se entregar a outras. Fez com que ele se sentisse feliz. Um homem simples e rústico daquele jeito, com uma princesa tão delicada se entregando espontaneamente para ele.

Era muito mais do que ele um dia já sonhou.
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Como uma breve brisa de inverno, passou-se o tempo e aumentou-se a vontade de se verem.

Marcaram um encontro.

Seria num restaurante mais ou menos chique, no centro da cidade. Lugar limpinho e cheiroso, mas nada tão caro que ele não pudesse pagar um vinho mediano e uma boa comida.

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Ela, que nunca soltava o cabelo, penteou-o e deixou com que ele caísse pelas suas costas, brilhando e radiando ainda mais sua beleza insegura e contida.

Iria sozinha para o restaurante. Não haviam trocado endereços, então marcaram de se encontrar lá às sete.

Inocente, fez-se um pouco de difícil e acabou chegando no local mais tarde. Não o encontrou lá.

E naquele que deveria ser o dia mais feliz de sua vida, Arlindo Orlando desapareceu. Escafedeu-se. Não deu as caras por lá assim como ela nunca mais recebeu notícias suas.

Aquilo bastou para que ela nunca mais confiasse em outro homem, assim como bastou para destruir toda a imagem que ele havia construído de bom moço, prestativo e bom amante.

***

Eram 17h30 e Arlindo Orlando resolveu tomar banho. Passou sua camisa e o terno e deixou-os em cima da cama, para vestir após o banho.

Pegou a navalha e o creme de barbear e ficou de rosto liso, demonstrando algumas marcas de espinha da adolescência.

Teria um encontro logo mais e queria estar bastante apresentável, para que ela não desistisse.

Ligou o chuveiro e deixou aquela água quente escorrer pelo seu rosto. Extremamente nervoso, estava com muito calor. Resolveu, então, mudar a temperatura da água, para que a água fria acalmasse seus anseios e relaxasse sua mente.

Foi assim que terminou a vida de Arlindo Orlando. Com uma queda de energia na casa, dado ao choque que levara, o que fez com que sua mãe o encontrasse morto no banheiro.

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Para a companhia de energia da cidade, Arlindo Orlando virou estatística.

Para sua amada, virou um filho da puta.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

O Auto do Compadre Sílvio

À espreita, como um leão fica de sua presa, ao lado de sua poderosa máquina pega-mulheres

Não. Nossa amizade não é escrita em três atos, porque se assim fosse ela teria um fim. E ela não tem.

Mas infelizmente, egoísta que sou, para falar o que quero, tenho que falar de mim.

Sempre fui intrometido mesmo. Acho que foi por isso que nós nos tornamos amigos.

Se eu não saísse por aí, metendo meu dedo em qualquer lugar (não pensem trocadilhos, seus filhos da puta, o texto é sério), não teria me sentido no direito de lhe mandar tomar no seu respectivo cu, quando muitas vezes reclamou da sua vida, quando nós não éramos nem amigos.

E aí eu fico imaginando o que você pensava de mim. Um cara arrogante e prepotente, que você confirmou anos depois ser a imagem que você tinha de mim, vir do nada e dizer que a vida tem de ser vivida, quando você, jovem Werther , duvidava disso.

Foram longas discussões, nas quais eu tive a grande oportunidade de comparar a vida a uma melodia de música, comparação esta que nunca mais serei capaz de repetir. E após tudo isso, aquilo que antes era apenas um duelo de retóricas, tornou-se um sentimento fraternal, na qual eu não queria que você desistisse. Não tão cedo.

Anos depois, num réveillon em que ambos estávamos sozinhos nas nossas respectivas casas, eu acabei descobrindo que eu me preocupava com você, assim como um pai se preocupa com um filho. Descobri que tenho e que gosto disso. De me envolver demais, de ser tão intenso com as coisas.

Deve ser por isso que eu mandei Forever Young do Bob Dylan pra você. Foi quando nos tornamos amigos de verdade. Companheiros. João’s de Santo Cristo. E eis que sempre servimos de base um ao outro. Você discorrendo sobre suas coisas feias e eu sobre as minhas, um lamentando mais que o outro. Mas nunca perdendo a oportunidade de sacanear, de trollar.

Assim, eu ainda imagino que essa discussão que nós tivemos na semana passada não passa de um troll, na qual um vai olhar para o outro e dizer “Pff, você achou que era sério?”. A falta de humildade de ambos nos fez dizer coisas pesadas um ao outro e, sinceramente, vai tomar no seu cu por ter feito isso. É, tô esperando você me mandar ir também...

O real é que eu não consigo falar nem um terço do que eu quero. Porque amizade é assim, um sabe do outro sem que seja preciso uma palavra. Mas ainda me sinto na obrigação de lhe dizer uma: desculpa.

Não quero que essa merda que aconteceu, ainda mais a porra da matemática, atrapalhem esses nossos poucos anos de amizade (ainda), porque, querendo ou não, você é feio pra caralho e eu não sou didático por MSN, mas nós somos amigos.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Saindo de uma fossa bem servida

Seu telefone toca.

De uma hora para outra, tudo aquilo que você pensou que fosse durar para sempre acabou. Todos seus sonhos que estavam pendurados no varal, a secar, caem com um simples vento, ao final de uma única ligação. Você chora. Tenta entender. Não consegue. Aí o destino lhe dá um tapa na cara e diz “Não entenda, apenas aceite”.

E o que é que você faz? Tenta entender.


              Sempre existem músicas sertanejas para afogá-lo em desgraça ajudá-lo a superar

Nessa busca pelo entendimento, você fecha sua cabeça. Não consegue se lembrar de um defeito se quer. Nada. Encuca que seu namoro era perfeito e que provavelmente há algo de errado com o mundo, para que ele acabasse assim, tão repentinamente.

É aí que começa o problema. Repentinamente, de uma hora pra outra, é o caralho.

Sempre houve indícios. Sempre houve momentos em que você mesmo pensou que fosse acabar ou até desejou que acabasse, por cansaço. Mas não tinha acontecido, não até agora. O desgaste do relacionamento desgastou vocês dois, com o tempo, até que aquilo ali tivesse de ter um fim. Nada de repentino.

Mas você é cabeça-dura. Fica enfurnado dentro de casa, tentando se isolar de tudo aquilo que o afasta de sua amada. Venera e idolatra todas as suas boas memórias, como se só elas existissem, como se isso diminuísse a sua saudade. Briga com todos os amigos que o mandam seguir adiante. “Como assim, seguir adiante? Ela é a mulher da minha vida. Não vou perdê-la.”.

E é com todo esse egoísmo que você descobre que está fodido. Na merda. Ou pelo menos é o que você acha. Todos dizem que é hora de seguir em frente. Você quer muito seguir, mas se fecha a qualquer oportunidade. Como seguir, então?

Primeiro passo: você não é o Mr. Catra. Essa é uma coisa que você consegue aceitar e entender facilmente. Você não é patrão. Por isso, não é porque o seu namoro acabou que você tenha que se revelar o maior putão do universo, pegador de todas as mulheres e passador de pica na cara das mesmas.

Ela dá pra nóis, que nóis é patrão
Já o segundo passo é maior. Bem maior. Envolve toda uma experiência de vida.


Encarando o fim do relacionamento e se redescobrindo


Você não vai conseguir, mas seria essencial que entendesse que sua vida não acabou simplesmente porque ela entrou com o pé e você com a nádega esquerda. Tá doendo, eu sei. Dói demais. Mas a vida não vai parar porque seu coração está partido não, querido. Tanto ela quanto o suposto amor da sua vida estão pouco se fodendo pro seu estado emocional.

Mas entenda que não é porque as coisas são assim que você deve ser um outdoor ambulante que irradia felicidade. Geralmente, sofre mais aquele que tenta mostrar o quão bem está após a separação e como isso foi bom para a sua vida. Acredite: ninguém sai bem de um término, mas a vida segue.

E é nesse seguir que a primeira coisa que você deve fazer é: deixar a sua ex-namorada livre. Se um relacionamento acabou é porque não dava mais. Não naquele instante ou até mesmo nunca mais. Como já dizia minha falecida vozinha “Quando uma mulher quer, nem o diabo consegue impedi-la”. Então, deixe-a ir. Não se prenda a ela. Não a busque. Deixe-a viver a vida que ela não teve com você.

Outra, ouça seus amigos. É quando você tá na merda que descobre quem é verdadeiramente amigo e quem não o é. A maior parte dos seus colegas, que não aguentam ouvir você chorando por uma menina 24/7, logo somem e o deixam ainda mais sozinho. Porém, aqueles outros, que ficam do seu lado, falando coisas que você não quer ouvir, só querem o seu bem. Muitos deles já passaram por tudo isso que está passando, então é uma experiência válida. Muitos, às vezes, precisam machucá-lo para que você perceba onde está. Só fazem isso, porque é algo que apenas eles teriam coragem de fazer. Só eles o conhecem suficientemente bem para dizer o que é necessário.


                                          I'm gonna die with a little help from my friends

Deixando a dita-cuja livre e ouvindo seus amigos, você estará a um passo de se redescobrir.

O fim de qualquer coisa na vida é sempre um choque e é justamente por isso que ficamos perdidos, sem ações. Você acaba se esquecendo de quem é, de quem sempre foi e se lembra apenas de quem era dentro do seu relacionamento, como parceiro. E assim, ver os seus amigos acompanhados dói, sobrar numa pizzaria também, assim como todos aqueles outros programas pra onde é arrastado. Você fica chato e cabisbaixo. Seu único assunto é a sua musa do verão, aquilo que ninguém mais aguenta escutar.

Você a libertou, mas não consegue se livrar das algemas que o prendem. Aí fica difícil seguir em frente, né?

É por isso que você também tem que se deixar livre. Parar de ter pena de si mesmo e aceitar que algumas coisas na vida não foram feitas para durar para sempre. Parar de se culpar pelo fim. Parar de se ver apenas ao lado dela e começar a se ver. Não com outra, nem sozinho. Começar a se ver como você sempre se viu e viveu até o dia em que encontrou alguém. Encontrar aquele cara que ficou guardado dentro do baú por seja lá quanto tempo. Aquele cara engraçado, que sabia fazer a galera rir, que se divertia e que era feliz.

Quando encontrar, você deve se reconhecer nele. Aí você vai descobrir, nesse mesmo cara, um homem completamente diferente, com uma bagagem de experiências muito maior, muito mais apto para enfrentar o mundo.

A partir do momento que você se reconhece e se aceita da forma que está, sem ela, abre as portas da vida com um pontapé muito mais forte do que aquele que tomou no início do texto, botando o pau pra quebrar e se abrindo a novas oportunidades.


Bem vindo ao admirável mundo novo


Estar aberto a novas oportunidades não significa procurar desesperadamente por elas. Se você já está bem consigo mesmo, pra que entrar no desespero para encontrar alguém?

Premeditar essas coisas é sempre um fracasso. Você idealiza uma mulher perfeita, que virá recompensá-lo por todos os males que passou, por tudo aquilo que o fez sofrer e que se entregará a você da mesma forma que você se entregou, quando se fodeu. Olha a responsabilidade que colocou em suas mãos, será que ela aguentaria isso?

A resposta é não.

Você não consegue tomar conta nem do seu coração e já quer que ela lhe entregue o dela? Não é assim que funciona. Expectativas baixas, recompensas altas. Não espere demais, não procure demais. Deixe as coisas rolarem.

Uma coisa que descobri é que o inesperado é uma coisa muito foda. Quando as coisas acontecem sem que você esteja procurando por elas, parece até que elas são melhores aproveitadas. Essa história de que o beijo de outra mulher vai amargar, que você vai ficar brocha, é tudo mentira. Não amarga porra nenhuma. É só você estar pronto para isso, caso uma loiraça bata na sua porta, pedindo pra entrar.

Posso entrar, gatinho?

Não adianta procurar um novo amor sem que você se ame primeiro. Aprendi isso da maneira mais difícil. A partir do momento em que você se ama o suficiente, descobre-se um homem de riquezas e bom gosto, como diria o Mick Jagger, e aí você se vê capaz de encontrar uma princesa linda, que adora tomar uma cerveja com você.

E aí, meu amigo, quando isso acontecer, você foi a primeira pessoa que superou uma grande perda e nem viu. Então para de se lamentar e use este grande choque como impulso para viver a porra da sua vida.



Nota: Eu sei que caí no lugar comum, dizendo tudo aquilo que vocês se cansam de ouvir. Mas era tudo que  eu tinha pra dizer. Qualquer coisa que não fosse isso aí seria uma mentira, então ao invés de inovar, eu preferi dizer aquilo que todo mundo sabe, mas que ninguém faz. Outra, prometi dedicar esse texto a duas pessoas, mas termino aqui dedicando a todos os meus amigos. Vocês são fodas.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

O vestido sujo de porra


Andava apressada.

Sua raiva do mundo a guiava para a lavanderia, que ficava a uns dois quilômetros de casa. Cabisbaixa, apertava contra o peito a lembrança da melhor foda que tivera até ali.

Agora, quando seu salto parecia querer perfurar a calçada, não sabia se deveria guardar essas lembranças. Já fora obrigada a guardar todos os presentes e os sonhos em relação ao futuro em cima do guarda-roupa, onde não os visse.

Mas algumas coisas não saíam de sua cabeça.

Como aqueles olhinhos, mais fundos que o normal, circundados por sobrancelhas extremamente bem desenhadas... Ou aqueles lábios finos, de uma boca bem pequena, rodeados por uma barba mal feita.
Não conseguia esquecer.

Mas agora, essa imagem tinha o perfil de um cafajeste. Um cafajeste que terminou por telefone, com a desculpa de que não era bom o suficiente para ela. Um cafajeste ainda capaz de mandar flores, como se isso melhorasse sua imagem.

Mas ela sabia que não melhorava. “Indigno filho da puta” era o que pensava. Porque só a falta de dignidade faz alguém acabar, pelo telefone, com toda uma intimidade construída, por todo o carinho e tesão compartilhados. A verdade é que ele não teria coragem para terminar pessoalmente, não olhando em seus olhos. Não mesmo.

Os homens são assim. Quando vêem que a sua individualidade está ameaçada, fogem. Têm medo de serem tocados lá no fundo e por isso rompem relacionamentos com a maior frieza e com a maior distância possível. Na cara dura.

E agora, tudo que ela queria era sentir raiva. Mas não era assim. Não iria nunca negar tudo aquilo que ele um dia representou, porque na época, era tudo que queria. Não se rebaixaria ao seu nível, de ter jogado a camiseta suja de batom no cesto de roupas sujas. Não. Não pisaria nas próprias memórias.

Perguntava-se se devia mostrar algo para ele. Como por exemplo, rasgar pétala por pétala de cada uma das rosas que recebeu e mandar de volta, com um bilhete escrito “Vai se foder”. Mas para que se preocupar com alguém que está pouco se fodendo?

Pouco se fodendo não. Agora deveria estar fodendo todas, porque pelo menos isso ele fazia bem.

Seu passo estava mais acelerado do que nunca. O vestido não ousava mexer naquelas garras que o prendiam. Seus olhos mareavam lágrimas, como de costume, lágrimas de amor. Era o seu maior dom. Chorar por amor.

Masoquista. É o que ela era. Uma masoquista retardada.

E é por isso que não conseguia parar de se lembrar de quando chegaram da boate e transaram em cima do balcão de mármore da cozinha. Não a mais longa, mas a melhor foda que já tivera. Com toda aquela paixão que só o sexo consegue expor. Que só os arranhões conseguem provar. Que só a vontade faz. E tamanha era a vontade que ela nem teve tempo para tirar seu vestido. Seu melhor vestido. Que agora estava lambuzado de porra seca. Então ela tinha que chegar o mais rápido possível na lavanderia, para lavar essa merda de vestido e seguir com sua vida.

Mas a verdade é que ela já tinha passado da lavanderia há muito tempo. Porque no fundo sabia que, assim como muitas coisas na vida, aquela porra ficaria bem guardada. Aquela porra agora era dela, assim como muitas outras que viriam.

Todos sabemos que não podemos lavar certas coisas.

Ou melhor, certas coisas não precisam ser lavadas.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Xenofobia Alternativa

Da série “Coisas que aprendi quando entrei na universidade”



Tá. É até legal dizer que você estuda num lugar onde cerca de 90% dos seus professores têm doutorado e outros 10% têm ou estão concluindo o trabalho de mestrado.

A UFG vem crescendo muito no país e a Escola de Engenharia Civil tem sido responsável por diferentes e importantes obras, como a reforma de Angra I, por exemplo.

Como diz o Lucas: O grande desafio para se entrar na faculdade.

Essa é a parte que o povo vê. A parte de que o povo sabe.

Mas no submundo, nos escombros da sala 3, as coisas não são boas. Nem fáceis.  

Uma das coisas que minha mãe me dizia era: “Filho, você vai entrar na faculdade e vai conhecer muitas pessoas diferentes, de cabeça aberta. Então, você tem que ter a cabeça aberta também, assim sua vida vai mudar e mudar pra melhor.”

Ela diz pra eu abrir minha cabeça, mas se eu a abrisse mais, ela provavelmente surtaria e acharia que eu uso drogas. De boa.

Então segui a vida, normalmente, sabendo que eu veria pessoas de todo tipo: estrangeiros, hippies, anarquistas. Enfim, todo tipo.

O primeiro grupo de pessoas que você acha que nunca vai odiar é o dos estrangeiros. Todos eles têm cara de perdidos no país e de que são super gente boas. Até porque, quando você é calouro, acha que os únicos estrangeiros são os alunos de intercâmbio.

Aí, meu amigo, você se fodeu lindamente.

Primeira aula de Geometria Analítica, na sala 3: muitos calouros reunidos, sentados, todos um perto do outro, rindo e conversando (calouro sempre anda em bando e rindo) até que o professor chega na sala. Todos se calam, naquele ato de ensinomedismo, de aluno uniforme e robótico.

Eis que surge um homem de meia idade, de pele levemente morena e de meia altura. Gordo e peruano.

Pelo fato de ele ser gordo, a primeira coisa que você pensa é que ele é gente boa, porque a maioria dos gordos é gente boa, então você acha que não vai ter problemas com ele. Até que o cara começa a falar em espanhol sobre equações impossíveis de Navier-Stokes, as quais são resolvidas por matrizes. Aí ele passa mil matrizes no quadro, põe uma letra grega (Nabla) no quadro que ninguém conhece e começa a pagar de fodão. Gordo só faz gordice.



Os professores de engenharia, aqueles que vão te ensinar algo útil para a sua vida como empregado, são gente finas. Passaram por tudo isso que você passou e, então, procuram te guiar àquilo que é necessário e útil.

Já os caras da matemática são putos com a praticidade dos engenheiros e sua falta de paciência para admirar a bonita matemática, ou até mesmo porque a Engenharia é a profissão que mais dá dinheiro, segundo um estudo da Universidade de Georgetown. É por isso que eles, os matemáticos, pagam de fodões e tão donos da verdade.

Tudo bem que o cara tem doutorado pelo IMPA (Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada), mostrou uma solução para uma equação impossível (através de matrizes) de Navier-Stokes. Isso não dá direito ao cara de vomitar coisas que nós não entenderíamos. Não mesmo.

Na UFG, o curso de engenharia civil não tem Álgebra Linear no primeiro semestre. O FILHO DA PUTA INSISTIU EM BASEAR TODA A GEOMETRIA ANALÍTICA EM ÁLGEBRA LINEAR. NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE ERA ÁLGEBRA LINEAR, POR QUE NÃO ENSINAR CARTESIANO, PROFESSOR?

“Porqué cartesiano és mucho trivial”, ele deve pensar.

O cara não se recusaria a descer ao nível dos alunos, ao nível da porra do livro didático que ele adota, para que os alunos pudessem aprender. Não. Ele tem que dar de uma forma humanamente impossível de se compreender, uma forma que só complica e mostra o quanto a matemática pode ser inútil se você não a sabe toda.

Foi isso que o cara fez por um semestre. Deu coisa até de AL 2 pra gente.

Resultado: ninguém aprendeu porra nenhuma.


Graças ao Matheus, a maior parte da galera conseguiu tirar 8,0 na segunda prova, que tinha dez questões e você tinha de escolher quatro para resolver. Alguns nerds são fodas e conseguem essas coisas, tipo tirar 8,0. Eu não colei e tirei um seis e meiozinho honesto. 

Mas o próprio Matheus não sabia o que estava fazendo, apenas fazia. Bem robotizado.

A sorte é que o cara tem a fama de não reprovar ninguém. Acho que é por isso que ele continua dando aula. Os alunos não têm coragem de reclamar dele porque passar na matéria é praticamente garantido. Se você tá fodido, sua nota mínima fica na média; se você não consegue fazer a prova, ele passa um trabalho e de te dá uma notaça, que eleva sua média geral.

Assim, ninguém reclamou e deixou o cara seguir um semestre falando num portunhol horrível, olhando pros próprios peitos.


Na hora de passar, o cara para de dar aulas e passa por e-mail dois longos trabalhos sobre Cônicas e Quádricas. Ninguém sabia resolver. Todos copiaram. Pedimos prum cara formado em matemática fazer uma parte do trabalho e assim, todos passamos.

A cópia da cópia da cópia...



Aí hoje, em plena aula de cálculo, ouvi um boato que me fez querer escrever este. 


O tal peruano seria o professor de Cálculo 2. Em nível de aprendizagem, todos nós já odiamos a idéia, mesmo o livro sendo bom, no caso o do Stewart, o cara tem o dom de complicar as coisas. Mas passaríamos garantidamente para o Cálculo 3, sem sabermos nada.

Será que compensaria, então, deixar o cara vomitar na nossa cara de novo?

Acho que não. 

Se faculdade é lugar de gente de cabeça aberta , você pode lutar pra mudar a situação. Só queria ver muita gente largando o comodismo e usufruindo do direito. Depois ir na coordenadoria do curso pedindo pro cara vazar.

Só, porque apesar de o cara não ser argentino, ele é um pé no saco na vida de todo mundo.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Só desejo a sua morte, o resto tá tranquilo...


As coisas, quando devem acontecer, simplesmente acontecem.

Eu não ia entrar na porra de um terminal hoje, eu ia virar à direita uma rua antes e pegar um ônibus diferente, que me levasse pra faculdade. Mas não, da última vez que fiz isso, cheguei atrasado e por medo de isso acontecer de novo, fui para a merda do terminal.

Aí, vem um filho da puta de não sei onde e rouba metade do meu coração (oitenta gigas, pra ser mais exato), com uma faquinha de serra ainda por cima.  Eu podia fazer disso uma história interessante, dizendo que uma gangue de ninjas de blackpower tentou me assaltar, ameaçando enfiar uma kataná na porra do meu rabo se eu não desse meu iPod pra eles. Mas, de novo, não. O que de fato aconteceu foi muito mais sem graça.

Entrei no terminal da Praça A, esperando o bendito 105 chegar. É um dos ônibus que vai mais cheio do universo e, como a situação do transporte coletivo em Goiânia é muito boa, 12354023823 pessoas vão em pé. O povo, pra entrar nesse ônibus, parece bicho. Sério. É um empurra-empurra do caralho, que se você não se apoiar em nada, é jogado longe, lá pra puta que pariu. 



Nesse momento, pelo menos dois iPods estão sendo levados.


Eu, pra não cair, então, fui me apoiar na porta, levantando os braços. Tava tocando Gimme Three Steps do Lynyrd Skynyrd e eu provavelmente deveria estar cantando And I'm a man who cares, and this might be all for you". No meio daquele ato de sarrar (onde o povo aglomerado sempre tende a se esfregar), de repente, a música parou de tocar. Quando eu olho pra baixo, vejo o cabo do meu fone, soltinho no ar. Travei meu corpo e comecei a olhar ao redor pra ver se alguém tinha um comportamento suspeito. A boiada continuou a subir a escadinha e eu, lindamente, me fodi.


Vocês podem dizer o que quiserem, como “Você nunca devia ter usado iPod num ônibus!” ou “Vai mais, otário”, que não vai mudar nada. Ando de ônibus há três anos e nunca tinha acontecido nada parecido, até hoje. O coisinha fazia parte de mim praticamente. Eram quatro malditos anos de companheirismo puro! E aí, do nada, numa manhã repentina, alguém leva meu filho de mim.

O pior é que eu não consegui ver nada. Não sei nada sobre o filho da puta. Sua fisionomia, seu gosto literário e até seu Pokémon favorito são desconhecidos, mas, na minha cabeça, já matei o safado três vezes. O cara tem que ser muito lazarento pra enfiar a mão no meu bolso e tirar meu iPod na hora de subir no ônibus. É um infeliz que vai vender um iPod Classic 4ª Geração de 80 gigas por cinquenta reais. Se ele quisesse mesmo esse dinheiro, eu preferia ter pagado.

E é por isso que eu quero que você se foda, seu filho da puta. Eu quero que você morra lentamente, com duas seringas de água fervendo pingando sobre o seu olho, porque você não entende o valor que as pessoas dão às coisas e, principalmente, à musica.

Como diria o Joe Hill, a música é a terceira estrada pra vida. Você se agarra a ela para fugir do tédio do arrastar das horas, para sentir alguma coisa, para se inflamar com todas as emoções que não experimenta na correria cotidiana de ir à escola, assistir à TV e colocar os pratos na lava-louça depois do jantar."

E agora eu vou sentir ou me agarrar a  quê, seu morroidético safado?! Que que eu vou fazer quando eu quiser ouvir Time, do Pink Floyd, antes de dormir? NADA. Eu não vou poder fazer merda alguma porque um filho da puta aproveitou do meu azar de pegar ônibus no terminal e me roubar.

Mas sua sorte vai mudar. Eu torço friamente pra que você morra, lentamente, ao som de um forró bem nojento, enquanto alguém corta seus dedos um por um. O pior, é que se depender da porra do meu iPod pra você morrer ao som de forró, você não vai morrer nunca.

Filho da puta.





:/




domingo, 12 de junho de 2011

Pra você

Eu não podia deixar este dia de hoje passar em branco, né? É por isso que este texto é dedicado a você.

Já faz um bom tempo que não te vejo e acho que o mais óbvio que tenho pra falar é que estou morto de saudades. Louco pra te ver. Relembrar os tempos em que eu ficava à sua espera, contendo toda a minha excitação ao te ver se aproximando.  Lentamente. Você sempre se aproximava lentamente, como se soubesse do meu desejo contido. Me provocando, o que sempre soube fazer.

É até engraçada toda essa paixão... Muitos amigos meus já me falaram que um dia nós nos casaríamos e, confesso que, até acreditei nisso algumas vezes. Só de lembrar das suas coxinhas, muitas vezes molhadas, me dando água na boca! Putz! Eu fico doido aqui.

E aí a saudade aumenta, aumenta a vontade de ir atrás de você. Buscar você. Só pra sentir seu gostinho mais uma vez e mais outra e mais outra, até me cansar. Ainda mais você, que sempre foi tão generosa e me saciou tantas vezes. Só tenho a agradecer, por tudo.

E é com grande aperto que eu me despeço neste texto. Mas fique sabendo que eu vou atrás de você de novo. Não sei quando, mas eu vou! Porque a cada dia que passa, maior é a minha vontade de te comer e, nas horas que a fome bate, o desespero só me faz querer você, ó gloriosa porção de frango à milanesa do 1008!













Rá! Pensou né?